Abolição da escravidão, para além do 13 de maio

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Mais importante que decorar datas é entender contextos. Partindo desse pressuposto precisamos ampliar os trabalhos realizados nas escolas, no que se refere às datas comemorativas e as possibilidades de atribuição de sentidos que elas possuem. O 13 de maio está envolto por questões que podem gerar reflexões, pois a abolição da escravidão foi um processo muito importante. Mas antes de adentrarmos na reflexão sobre essa data, precisamos expor os dados vergonhosos relacionados à escravidão no Brasil.

Segundo dados da The Trans-Atlantic Slave Trade Database cerca de 36 mil viagens de navios negreiros foram realizadas entre 1500 e 1867, sendo que para o Brasil foram cerca de 14.000. Nosso país recebeu cerca de 4,9 milhões de cativos e esse número é maior que o das colônias inglesas. A escravidão nas terras brasileiras durou mais de 300 anos e o Brasil foi o último país da América Latina a aboli-la. Isso não pode ser ignorado, pois as chagas e consequências desse período difícil permanecem.

A lei áurea aboliu formalmente a escravidão e foi assinada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888. Mas não podemos parar por aí, ao trabalhar esse tema nas escolas precisamos dar importância e instigar os vários questionamentos que surgem. Será que nessa data é correto darmos o protagonismo para a princesa? Antes dela, outros lutaram pelo fim da escravidão? Precisamos falar do movimento abolicionista, lembrar de personalidades como o parlamentar Joaquim Nabuco, o poeta Castro Alves, o advogado Luís Gama, o jornalista José do Patrocínio. Até mesmo José Bonifácio, monarquista e conselheiro de D. Pedro I já falava em abolição e queria integrar os libertos e indígenas à sociedade. Mas então, por que a escravidão durou tanto tempo? Precisamos falar dos interesses dos grandes latifundiários, das atividades econômicas, do trabalho difícil e intermitente que os escravos realizavam, dos castigos que sofriam, da vida dura que tiveram.

 

O processo de abolição da escravidão foi lento e não começou com a lei áurea. É preciso problematizar as outras leis que vieram antes, que foram contraditórias e que serviram para “tampar o sol com a peneira”. Elas serviram muito mais para atrasar e não tornar a abolição imediata. Em 1850 entrava em vigor a lei Eusébio de Queirós, que proibia o tráfico de escravos. Em 1871 foi a vez da Lei do Ventre Livre, que determinava que as crianças de mães escravas grávidas nasceriam livres. Mas como as crianças ficariam longe de suas mães? Além disso, o senhor de escravos tinha como opção ser tutor dos filhos de escravos até eles chegarem aos 21 anos ou receber uma indenização caso os filhos fossem libertados com 8 anos de idade. A lei dos Sexagenários foi aprovada em 1885, ela concedia a liberdade para os escravos com mais de 60 anos, porém era difícil um escravo conseguir alcançar essa idade, a maioria morria antes.

É preciso abordar nas reflexões que são suscitadas a partir dessa data, os interesses que estão por trás da abolição, como as pressões dos republicanos e as pressões da Inglaterra, que alcançava seu êxito industrial e estimulava cada vez mais o trabalho assalariado e o mercado consumidor. Não podemos deixar também de abordar os processos de resistência dos negros, os quilombos e as revoltas como a dos Malês e a do Haiti.

 

O 13 de maio e a lei áurea possuem seu grau de importância, pois a liberdade faz parte da incansável busca humana. Mas liberdade sem dignidade, sem voz, sem oportunidade, que sentido faz? Qual é mesmo a verdadeira liberdade? Após a assinatura da lei áurea, muitos dos ex-escravos não tiveram a oportunidade de ter empregos e moradias decentes. Grande parte não pôde estudar. A abolição ainda parece não estar concluída, pois o racismo e as desigualdades ainda persistem, a cultura afro-brasileira ainda não é devidamente valorizada e conhecida e a liberdade ainda está no horizonte daqueles que sonham e a querem viver.

 

Amanda Karla Correa Rego é historiadora, estudante de pedagogia e mestranda pelo programa de Mestrado Profissional em Ensino de História da UFG. Atua como Analista de criação, comunicação e editorial na empresa Inteligência Educacional.

 

 

17 thoughts on “Abolição da escravidão, para além do 13 de maio

  1. Excelente texto, Amanda. Rico em informações, é sintético e, ao mesmo tempo, revelador de um passado sombrio que não pode ser ignorado. É importante discutirmos essa problemática no nosso presente e deixarmos essa abordagem para o presente das próximas gerações. O respeito com quem sofreu e ainda sofre com os impactos da escravidão precisa existir.

    Wildiane Camargo
    Professora de Língua Portuguesa e Literatura

  2. Como alfabetizadora, penso em atividades, estratégias e dinâmicas dentro dessa clientela de alunos. Então, sempre trabalho muito com eles a questão da cultura, da herança cultural que os negros trouxeram para o nosso país. Na semana da Consciência Negra, sempre faço ( nos últimos anos que tive oportunidade ), exposição de ervas que podemos usar como chás e sirvo no recreio sempre dois tipos de chá para degustação, em um cantinho da escola decorado para esse fim. Com flores e ervas perfumadas e loucas com estilo antigo. Fica show! É muito bom ver a fila se formar para experimentar. Professores ajudam fazendo parte da degustação.
    Enquanto trabalho em sala de aula, reforço o que usufruímos do conhecimento desse povo. Comidas, bebidas, o colorido dos trajes e até o tecido de sacaria das roupas dos escravos das plantações.
    Além de suas crenças, rezas, brincadeiras.
    Dessa forma, penso que, conforme vão passando para os anos seguintes vão adquirindo os conhementos mais teóricos, dentro da economia, política e os destemperos da época.
    É isso!
    Grande abraço!

  3. É muito gratificante falar desse assunto, embora nos deparamos ainda com muitos racismo contra esse povo que fez e faz muitas histórias.

  4. A questão da escravidão ainda é uma coisa que necessita ser rompida dentro de muitos de nós. Acredito que há uma necessidade de estarmos esclarecendo isso para nossos alunos , construindo assim a verdadeira liberação

  5. Parabéns por cultivar a cultura de datas!pois percebo que os educadores estão deixando essa cultura acabar como muitas outras.

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