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Professor, você é ponte? Um olhar psicanalítico para a relação transferencial no contexto educativo

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” (Paulo Freire, 1996)

Pensar a educação sobre um olhar psicanalítico pode soar pouco tradicional, no entanto parece uma observação rasa se levarmos em conta que a ausência de uma relação educativa bem estabelecida entre quem ensina e quem aprende deixa o processo bastante comprometido. E o que encontramos na teoria psicanalítica, de forma simplista, é justamente a compreensão do funcionamento humano a partir do reconhecimento dos processos psíquicos inconscientes, perspectiva muito produtiva para ajudar a entender melhor a relação entre professor e aluno. A questão também pode ser que, sob o prisma da psicanálise, consigo dizer coisas um pouco menos óbvias (ou menos tolas) sobre o processo educativo.

Bem, não se sabe ao certo, mas me arrisco a lhes dizer que o entrelaçamento entre esses dois saberes, psicanálise e educação, permite-nos ver o campo educacional menos centrado no ato de ensinar, já que, para Freud, o professor cria condições para que o aluno aprenda, ele o conduz na construção do conhecimento.

Partindo desse ponto, nossa discussão será mais centrada na relação entre professor e aluno, afetividade, identificação e subjetividade. Das coisas que sabemos, sejamos psicanalistas ou educadores, é que, em meio a giz, lousa, livros e provas, algo além da transmissão de conteúdo acontece na escola durante o desenrolar das aulas, fugindo da lógica da simples transmissão de saber. Freud, em seu breve texto, A Psicologia de um colegial (1914), aponta-nos que o aluno vê no professor mais do que um adulto que ensina. O professor é o depositário de confiança e de ideais. Nele, são projetados, por parte de quem aprende, afetos e expectativas; claro, tudo de forma inconsciente, e isso se chama transferência.

O conceito de transferência foi apresentado por Freud pela primeira vez em 1895, para descrever a relação entre médico e paciente, em seus estudos sobre histeria, em que o paciente projeta no analista sentimentos e atitudes dirigidas anteriormente às figuras parentais. Em 1912, no texto A dinâmica da transferência, Freud constatou que esse fenômeno ocorria nas diversas relações estabelecidas durante a vida das pessoas, como reedições de experiências vividas com os pais. E, no contexto escolar, são atualizadas na relação com o professor. Pereira (2010), no texto A transferência na relação ensinante, reafirma tratar-se de fenômeno psíquico presente em todas as relações, não se resumindo apenas às situações clínicas, como frutos de identificações que ocorreram nos primeiras anos de vida com seus pais ou cuidadores, importantes para a construção da personalidade e introjeção de regras, limites e autoridade, e estão fortemente vinculados às questões edípicas. Quanto a este último, mesmo importante, ficará para outro momento, por ora vamos nos debruçar sobre o quanto a transferência é essencial para o aprendizado. Bem, agora passada a primeira infância, os sentimentos, antes direcionados aos pais ou cuidadores, são dirigidos aos seus mestres, como Freud nos aponta, em 1914. A criança tem a figura dos seus pais idealizada, e com a chegada de uma certa idade acontece uma “desilusão” imaginária. Ao lançar o olhar para além da sua casa, a criança desprende-se desta primeira imagem. Projeta no professor seus afetos, agora sendo a figura de autoridade e de ideal. Projeta não apenas amor, mas também críticas à sua figura. E é nesse momento que a transferência se revela, e o professor torna-se o substituto da figura parental, não de forma literal e tampouco consciente, mas de maneira simbólica. E quando isso não ocorre, o lugar do professor fica questionado, de modo que elementos como limite e respeito podem ficar mais difíceis de serem demarcados. No fim, o aluno deve supor no professor um saber. Não nos resta dúvida de que o caminho do saber passa inevitavelmente pela pessoa do professor, e menos pelas fórmulas matemáticas, regras gramaticais ou quaisquer outros conhecimentos científicos, não que eles não sejam importantes, mas isso só é possível se houver suposição de saber. É aqui que eu me atrevo a dar um conselho para os que ocupam o lugar de professor: o seu papel não é o de se fixar no lugar de autoridade absoluta, mas o de sustentá-lo simbolicamente. Isto significa que a relação transferencial não deve ser produtora de servilidade, para atender os desejos do professor, de tal forma que as dúvidas e os questionamentos não sejam bem-vindos e os alunos passem a ser meros repetidores de fórmulas, para agradar em vez de pensar. O outro extremo, o de nada desejar ou esperar daquela criança, é igualmente nocivo, pois inviabiliza sua condição de desejante, de sujeito.

Não estou falando que o educador deva assumir o lugar dos pais, na verdade, isso é contraindicado, o que eu os apresento é que o professor deve estar preparado para essa “trama invisível”, como Pereira (2010) nomeia. Seu papel não é simplesmente o de transmitir informações ou ser um “dador” de aulas. Ele é encarregado de transmitir saberes, e a relação transferencial, por parte do aluno, garante poder e autoridade em sala de aula.

Como podemos ver, o ato de ensinar é criar condições para que o saber possa emergir. Por isso, professor, esteja atento para orientar o aluno a encontrar a sua própria voz, conduza-o no caminho da construção de saber, faça da sala de aula um espaço de criação e seja a ponte entre o saber e o estudante, para que este se constitua como sujeito.

Este texto é parte da Revista Expresso Inteligência, 11ª edição. Baixe a revista na íntegra, aqui.

Escrito por: Aline Souza Araújo (Psicanalista, graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC), especialista em Educação Social pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Foi professora e atuou como psicóloga clínica e no atendimento de adolescentes autores de ato infracional e suas famílias. Atualmente, é diretora educacional da Inteligência Educacional, ministrando palestras para famílias e professores).

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