21 de abril – Tiradentes e suas representações

O conhecimento histórico não é algo estático, ele pode passar por transformações, acréscimos e novas interpretações podem surgir, carregadas de influências e interesses. A figura emblemática de Tiradentes é um exemplo de como um personagem histórico pode ou não ganhar destaque e status de herói e como ele pode ter diferentes representações, inclusive artísticas, que vão de encontro a aspirações que ultrapassam sua participação em eventos históricos, como no caso da Inconfidência Mineira, que ocorreu no final do século XVIII.

Em um primeiro momento Tiradentes não foi visto como herói, isso só foi ocorrer após a proclamação da República, que aconteceu em 1889, portanto muito após os eventos da Inconfidência. Durante o final do período colonial e todo o período imperial, ele foi visto como conspirador, já que tinha fortes ideais iluministas e republicanos, sendo isso intolerável pela coroa portuguesa e pelos defensores da monarquia. As circunstâncias em torno da sua morte também nos fazem pensar sobre o caráter elitista que sempre esteve presente na sociedade brasileira, afinal ele foi o único a ser condenado a morte, pois não tinha influência com a coroa portuguesa e era de origem humilde e popular.

“Leopoldino de Faria: Resposta de Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes), ao Desembargador Rocha, no ato da comutação de pena aos seus companheiros, depois da missa. Óleo sobre tela, 195 x 268 cm. Câmara Municipal de Ouro Preto, MG. Foto: Dimas Guedes.”

Após a proclamação da república, os ânimos continuavam exaltados, revoltas, crises políticas e econômicas se faziam presentes e então era preciso tornar o novo regime mais popular. É dentro desse ideário que Tiradentes é colocado como herói. Além de sua origem popular, ele não negou sua participação na Inconfidência, o que remete ao fato da morte pela causa republicana. Toda essa visão é carregada de civismo, importante elemento para integrar pessoas e legitimar regimes políticos.

Quanto à aparência física de Joaquim José da Silva Xavier, pouco se sabe. Quando homens eram enforcados, comumente vestiam uma espécie de túnica branca e tinham seus cabelos e barbas raspados. Mas não foi bem assim que Tiradentes foi retratado no quadro de Aurélio de Figueiredo, por exemplo.

  “O martírio de Tiradentes”, Aurélio de Figueiredo, 57 x 45 cm, 1893, Museu Histórico Nacional, RJ
“O martírio de Tiradentes”, Aurélio de Figueiredo, 57 x 45 cm, 1893, Museu Histórico Nacional, RJ

A partir dessa imagem, podemos pensar sobre a influência religiosa nessa composição. Tiradentes é retratado como mártir e se parece com a imagem consagrada de Jesus Cristo na iconografia cristã.

E muitas outras retratações foram feitas além dessa, por artistas como Pedro Américo e Cândido Portinari. Também encontramos Tiradentes retratado em pinturas com seu uniforme de alferes, exaltando o caráter militar. Todas essas retratações ajudaram na construção do imaginário em torno desse importante personagem histórico.

Mitos e verdades se entrelaçam quando estudamos Tiradentes, o universo em torno do que se pode trabalhar a partir dele em sala de aula é muito rico. O conhecimento histórico fica ainda mais interessante e significativo se estimularmos a crítica e irmos além de concepções enraizadas e inquestionáveis. Contextualizar o 21 de abril é muito importante para uma melhor compreensão de nossa história.

Amanda Karla Correa Rego é historiadora, mestranda em ensino de história pela UFG e estudante de Pedagogia pelo IF Goiano. Atua como analista de produção de conteúdo na Inteligência Educacional.

 

Posts Relacionados

0
Would love your thoughts, please comment.x
Mande-nos um Whats